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Revista da Sociedade Brasileira de Enfermeiros Pediatras / Volume 1, Número 0
Volume 1, Número 0

Revista da Sociedade Brasileira de Enfermeiros Pediatras - Artigo de Revisão

CONHECIMENTOS ESSENCIAIS NO CUIDADO À CRIANÇA EM OXIGENOTERAPIA

Written by Lúcia Martins de Magalhães Pierantoni e Ivone Evangelista Cabral

A oxigenoterapia é um procedimento realizado pela equipe de enfermagem que trabalha em unidades pediátricas. Consequentemente, estes trabalhadores precisam saber sobre o dispositivo mais apropriado para fornecer a concentração de oxigênio que a criança precisa, e então destacamos os cuidados essenciais na implementação desta terapêutica. Concluimos que também é importante considerar o oxigênio como uma medicação, tal como acontece com um medicamento, ele possui efeitos terapêuticos e colaterais, e sua eficácia depende da via de administração, da dosagem e de cuidados especiais com a criança.

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INTRODUÇÃO

A enfermagem presta cuidados à criança a maior parte do tempo, e o que mais a habilita para entender os sinais clínicos que ela apresenta é a observação e registro indicativo da necessidade de oxigenoterapia para evitar o agravamento da insuficiência respiratória.

De acordo com Bajay (1991), a oxigenoterapia é uma terapêutica racional e sistematizada com oxigênio, administrada em concentrações ou pressões maiores que a da atmosfera ambiental, ou superiores a 21%, para corrigir ou atenuar deficiências de O2 ou hipóxia (oxigênio insuficiente no sangue). Na prática a quantidade de oxigênio oferecida deve ser mínima necessária para manter a PaO2 entre 50-80 mmHg e/ou saturação de hemoglobina entre 90 e 95%.

Brunner & Suddarth (1985; 1997) destacam que em se tratando de uma terapêutica medicamentosa, há necessidade de uma prescrição médica para que a enfermagem possa desenvolver os procedimentos de implementação necessários ao uso eficiente da terapêutica. Conseqüentemente, é nossa responsabilidade conhecer com profundidade as vias de administração do oxigênio, as razões de sua eleição, as vantagens e desvantagens de cada método adotado, bem como o fluxo de O2 adequado e a FIO2 fornecidas.

Há necessidade da enfermagem instalar, controlar e acompanhar cuidadosamente a terapia, para prevenir os efeitos tóxicos e colaterais do oxigênio, o que demanda do enfermeiro e da equipe sob sua supervisão conhecimentos sobre os gases arteriais, sua interpretação e as reações da criança submetida à terapêutica..

Diante disso nos propusemos apresentar subsídios teóricos para uma melhor utilização da oxigenoterapia e descrever alguns cuidados que devem ser observados pela equipe de enfermagem na utilização de oxigênio, demonstrando as vantagens e desvantagens de cada método, bem como, o fluxo de oxigênio adequado e a FIO2 fornecida.

Para a realização deste trabalho utilizamos como fonte de consulta, dentre outros, os seguintes autores: Bajay (1991), Brunner & Suddarth (1985; 1997), Brasil (MS, 1994), Piva(1992) e Schmitz (1995).

RESPONSABILIDADES DA ENFERMAGEM FRENTE À OXIGENOTERAPIA

Dentre as responsabilidades da enfermagem na implementação da terapêutica com a criança, passaremos a apresentar aquelas que demandam maior nível de atenção e maior corpo de conhecimento.

Estar atenta aos sinais clínicos de hipóxia, de origem respiratória, cardíacos, neurológicos e outros. Quanto aos sinais respiratórios, destacamos a freqüência e esforço respiratório acentuado ou respiração laboriosa (retração intercostal, batimento de asa de nariz), a cianose progressiva, perioral, de extremidades, generalizada (tardia).

Quanto aos sinais cardíacos, chamamos atenção para a taquicardia, pulso filiforme (sinais precoces); bradicardia, hipotensão e parada cardíaca (sinais posteriores).

O enfermeiro precisa estar atento aos sinais neurológicos de inquietação, confusão, desorientação, prostração, convulsão, coma; além de outros como palidez, sinais decorrentes de acidose metabólica (respiração tipo Kusmaull, embotamento sensorial e inconsciência etc) Prevenir a combustão alimentada pelo oxigênio, por ser um gás com riscos de explosão e incêndio, especialmente, evitando a utilização de óleos e graxas; não permitindo o uso de aparelhos elétricos próximo à tenda de O2, mantendo os reservatórios portáteis e móveis de O2 na vertical e longe da fonte de calor; não fumar bem como evitar o uso de roupas de cama sintética.

Efetuar controle e acompanhamento cuidadoso da terapia para prevenção de efeitos tóxicos e colaterais do oxigênio, sendo os mais conhecidos aqueles que afetam a retina e os pulmões. Destacamos a seguir algumas complicações inerentes ao uso de oxigênio que precisam ser evitadas, através de uma prática consciente e bem informada:

a) Concentrações inspiradas maior que 50%, por tempo prolongado, ocasionam alterações pulmonares (atelectasia, hemorragia , edema, fibrose) e displasia broncopulmonar;

b) Para um PAO2 (pressão parcial de oxigênio alveolar) acima de 100 mmHg (principalmente em prematuros), há ação tóxica sobre os vasos da retina, determinando a fibroplasia retrolenticular, apesar da evolução benigna em 90% dos casos, pode causar cegueira);

c) O enfermeiro deve acompanhar a mensuração dos gases arteriais e supervisionar a fração inspirada de O2 (FIO2), através de analisadores de O2 ou consultar tabelas específicas, se efetuada mistura de ar comprimido e O2;

d) Outro efeito indesejável é o de ressecar mucosas, o que é prevenido pelo uso de umidificadores.

Manter as vias aéreas desobstruídas, o que possibilita um aproveitamento total do fluxo de oxigênio em uso, promovendo a extensão do pescoço, a retificação da língua quando ocorre obstrução da hipolaringe (manualmente ou utilizando cânula de Guedel) e ainda removendo as secreções. Conhecer e controlar o equipamento, a fim de detectar obstruções, dobraduras ou vazamentos ou mal funcionamento dos circuitos e proceder a limpeza adequada após o seu uso.

Aplicar e controlar a terapêutica, de acordo com o método, duração e concentração prescritas e/ou condições do paciente. Nunca se esquecer de manter o O2 umidificado e aquecido. É preciso ainda, controlar a resposta do paciente à terapêutica durante a hipóxia de 15 em 15 minutos (no mínimo) e posteriormente de hora em hora, se houver melhora do quadro. Observar o pulso, características da respiração e das condições do paciente (espera- se que haja redução da inquietação e do esforço respiratório, melhora da cianose e retorno aos parâmetros normais dos sinais vitais) Preparar, orientar e apoiar a criança e a família durante o procedimento, fornecendo explicações e apoio para diminuir a ansiedade. Permitir que a criança toque o equipamento e verifique o funcionamento, desde que tenha compreensão para isto, pois as crianças menores devem ser contidas para evitar que interfiram no tratamento Registrar início e término do tratamento e intercorrências. A terapêutica deve ser encerrada gradualmente, controlando a reação da criança e os gases arteriais. A atenção às outras necessidades da criança como, mobilidade (mudança de decúbito), higiene e conforto, manutenção da Integridade corporal, manifestações de afeto por meio de procedimentos como dar colo, conversar, brincar, dentre outros, são imprescindíveis para o sucesso da terapêutica.

Quanto aos sistemas de fornecimento de O2, lembrarse de que os dispositivos de fluxo baixo fornecem, somente parte do gás inspirado. O ar ambiente é misturado ao oxigênio fornecido pelo aparelho quando o paciente inspira. Ficar atento, pois quanto maior a hiperventilação ou inspiração profunda menor a concentração de O2 inspirado, em função da entrada de grande quantidade de ar ambiente. Quanto mais superficial a respiração maior a concentração de O2 inspirado. Como exemplos, podemos destacar o catéter, a cânula nasal e a máscara simples.

Outros exemplos são os dispositivos de alto fluxo como os recipientes cefálicos, tendas e máscaras especiais.

MONITORAÇÃO GASOMÉTRICA

Quando uma criança apresenta alguma dificuldade respiratória, é fundamental que sejam analisadas as alterações dos gases sangüíneos, pois a indicação da terapêutica, posologia e método de administração, se por pressão positiva constante de vias aéreas (CPAP) ou ventilação mecânica, dependem dos achados gasométricos Logo, vê-se a importância da monitoração da gasometria de todas as crianças em uso da oxigenoterapia, que pode ser por método não-invasivo ou técnica transcutânea, ou invasivo através da punção arterial.

Segundo Jones & Deveau (1993), quando há uma demanda crescente (superior a 50%), de oxigênio que os métodos tradicionais não conseguem atender, o CPAP nasal passa a ser o método mais indicado. E quando em CPAP nasal, a criança apresentar uma necessidade de oxigênio maior que 100%, com quadros de apnéia ou PaCO2 maior que 60 TORR, há indicação de ventilação mecânica.

Saturômetro: Procedimento não-invasivo de monitoração gasométrica Através deste instrumento avalia-se a fração inspirada de oxigênio (FIO2) por um monitor transcutâneo. O oximetro possui painel digital ou manual para calibragem de oxigênio de 21% até 100%. A boa correlação deste instrumento com a análise gasométrica, depende da perfusão periférica e da estabilidade da transmissão do sinal, ao sensor colocado na polpa digital ou no lobo da orelha.

A saturação recomendada é de 90 a 94% que equivaleria a uma PaCO2 entre 50 - 70.

GASOMETRIA ARTERIAL: PROCEDIMENTO INVASIVO DE MONITORAÇÃO GASOMÉTRICA

Procedimento técnico simples e seguro para aferição do conteúdo de oxigênio e gás carbônico no sangue, possibilitando avaliar o equilíbrio ácido-básico, metabólico e respiratório.

A Interpretação da gasometria é uma atividade importante a ser dominada pelo enfermeiro. Portanto será acidose, qualquer condição em que ocorra aumento do ácido carbônico (H2CO3) ou queda do bicarbonato básico (HCO3). PH igual ou inferior a 7.35; e alcalose, qualquer condição na qual ocorre aumento do bicarbonato básico ou queda do ácido carbônico. PH igual ou superior a 7.4. Tanto a acidose como a alcalose metabólica refletem o impacto sistêmico das alterações dos níveis de bicarbonato de sódio (HCO3). Já a acidose respiratória ou a alcalose respiratória afetam o ácido carbônico (H2CO3) e o dióxido de carbono (CO2), portanto com impacto nos pulmões.

 

Imagem

Outros dados importantes a serem considerados: a) PaO2 - concentração de oxigênio/ pressão parcial de oxigênio dissolvido no sangue; valores normais = 85 a 100 mmHg.; b) PaCO2 - tensão de dióxido de carbono/uma PaO2 baixa = hiperventilação, PaO2 elevada = hipoventilação; valores normais = 35 a 45 mmHg; c) SaO2 - saturação de oxigênio/ oxigênio transportado pela hemoglobina; valor normal: 95%; d) Bicarbonato (HCO3), valores normais = 22 a 28 mmHg/litro.

MÉTODOS DE ADMINISTRAÇÃO DE OXIGÊNIO EM CRIANÇAS – SUBSÍDIOS PARA O CUIDAR EM ENFERMAGEM

Além dos cuidados fundamentais à criança submetida à oxigenoterapia e das informações importantes sobre a monitoração gasométrica, existem os métodos de administração do oxigênio, os quais apresentaremos no quadro que segue (página ao lado), indicando as vantagens e desvantagens de cada um deles, a FiO2 e fluxo de oxigênio adequado.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Entendemos que a qualidade de um serviço não se faz apenas pela sua aparelhagem ou pelo desenvolvimento de técnicas sofisticadas, mas pelas características do seu pessoal, que precisa estar em processo contínuo de educação e atualização. A equipe atualizada torna-se capaz de prestar uma melhor assistência a criança, pois está familiarizada com as técnicas e os equipamentos, compreendendo as bases fisiológicas subjacentes aos procedimentos, e os efeitos da terapêutica sobre o processo de recuperação do cliente sob seus cuidados. Desse modo, esperamos contribuir com a prática da enfermeira que cuida da criança hospitalizada ou no domicílio, que requer a oxigenoterapia para manter sua função respiratória compatível com a vida.

Os conhecimentos que aqui foram arrolados permitirão a elaboração do plano de cuidados individualizado para a clientela da faixa etária pediátrica, com maior segurança; e ainda uma maior confiabilidade na implementação das ações traçadas, que se traduzirão em melhora do quadro clínico.

Tabela - Parte 1

Tabela - Parte 2

Tabela - Parte 3

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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